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OCDF · Tecnologia

Dario Amodei, criador do Claude: as Leis de Escala, a Anthropic e a regra que custou o Pentágono

O físico que liderou a formulação das Leis de Escala da inteligência artificial, cofundou a Anthropic e recusou o maior comprador do planeta por duas regras escritas quando a empresa ainda era pequena. O que o caso ensina sobre curva, divergência e o preço de um princípio.

Heitor Castro, investidor e empresário · 9 minutos de leitura

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Em fevereiro de 2026, o Pentágono exigiu de uma empresa de inteligência artificial que seus modelos ficassem disponíveis para todos os fins legais, sem exceção. A empresa aceitou servir aos militares, mas manteve duas recusas: armas totalmente autônomas e vigilância em massa de cidadãos americanos. A resposta veio de cima. Donald Trump mandou o governo federal abandonar a empresa em seis meses, o Pentágono a classificou como risco à cadeia de suprimentos (rótulo até então reservado a fornecedores estrangeiros suspeitos) e a principal concorrente, a OpenAI, fechou acordo com a Defesa logo depois.

A empresa é a Anthropic, criadora do Claude, avaliada em 965 bilhões de dólares em maio de 2026. Quem assinou a recusa foi Dario Amodei, físico de 43 anos que passou a carreira alertando que a inteligência artificial pode ser perigosa e, ao mesmo tempo, construiu uma das mais poderosas do mundo. A contradição é uma aposta deliberada: se a tecnologia vai chegar de qualquer jeito, melhor que quem leva o risco a sério esteja na fronteira. Este texto conta como ele chegou a essa aposta, o que ela custou e o que se pode tirar dela.

Da hepatite C do pai às Leis de Escala

Dario Amodei nasceu em São Francisco em 1983, filho de um artesão do couro italiano e de uma gerente de projetos de bibliotecas. Em 2006, o pai morreu de hepatite C. O tratamento da época curava entre 40% e 50% dos pacientes. Poucos anos depois chegou o sofosbuvir, antiviral que cura cerca de 95%. O próprio Dario escreveu na rede X que o remédio provavelmente teria salvado o pai. A diferença foi tempo de pesquisa. Em setembro de 2026, ele contou que sobreviveu a um câncer em estágio inicial que, 50 anos antes, não teria tratamento. A obsessão por acelerar a ciência vem de casa.

No doutorado em Princeton, defendido em 2011, estudou como circuitos de neurônios reais se organizam em rede. Em 2014, entrou no laboratório de IA da Baidu (o Google chinês) no Vale do Silício, sob Andrew Ng, um dos pesquisadores mais influentes da área. Ali viu algo que mudou sua carreira: quando o sistema de reconhecimento de voz recebia mais dados e mais computação, melhorava de forma regular. Não era talento de engenheiro. Era uma curva.

Em 2016, publicou com outros pesquisadores o paper Problemas Concretos em Segurança de IA, que tirou o tema da ficção científica e o colocou na engenharia. O exemplo mais conhecido é a burla da recompensa: o sistema aprende a maximizar a nota, não a tarefa, como o aluno que decora o gabarito. Quem gerencia gente reconhece: meta de vendas que vira venda a qualquer custo é exatamente isso.

Na OpenAI, onde chegou a vice-presidente de pesquisa, escreveu em 2017 o documento interno sobre a hipótese do grande bloco de computação: a inteligência de um sistema vem de massa de computação aplicada a dados, não de ideias brilhantes. Em janeiro de 2020 saiu o paper das Leis de Escala, com Jared Kaplan como primeiro autor e Dario como último, a posição que em ciência costuma indicar o líder do grupo. Ele não descobriu as leis sozinho, como se repete. Liderou quem as formulou. O que elas dizem: a qualidade do modelo melhora de forma previsível conforme crescem computação, dados e tamanho da rede. Dava para desenhar a curva e saber onde o modelo estaria com dez vezes mais computação antes de gastar o dinheiro. Meses depois, o GPT-3, do qual ele foi um dos líderes, confirmou a curva.

A saída da OpenAI e a fundação da Anthropic

Se a curva é previsível, sistemas muito poderosos vão existir de qualquer jeito. A pergunta deixa de ser se, e passa a ser quem os constrói e com que regras. No fim de 2020, Dario tinha três caminhos: ficar e brigar por dentro, sair e alertar de fora sem dinheiro para treinar modelos de ponta, ou sair e montar um laboratório de fronteira, o que exigia bilhões e significava entrar na corrida que dizia temer.

Circula a versão de que ele saiu por causa do acordo da OpenAI com a Microsoft. No podcast de Lex Fridman, em 2024, ele disse que é falso. Descreveu a saída como divergência de visão sobre como conduzir a tecnologia, e resumiu: tentar discutir com a visão de outra pessoa é improdutivo. Escolheu o terceiro caminho, e não saiu sozinho. Levou a irmã Daniela, então vice-presidente de Segurança e Política da OpenAI, Jared Kaplan, Tom Brown, que liderou o GPT-3, e outros pesquisadores.

A Anthropic nasceu em 2021 como corporação de benefício público: empresa com fins lucrativos, mas com estatuto que obriga os diretores a considerar uma missão pública. Um fato que a empresa não gosta de lembrar: cerca de 500 milhões de dólares vieram da FTX, corretora de criptomoedas de Sam Bankman-Fried, depois condenado por fraude.

Duas regras foram escritas quando a empresa ainda era pequena. A IA Constitucional, de 2022: em vez de pagar milhares de pessoas para avaliar respostas uma a uma, a empresa escreveu uma lista de princípios e ensinou o modelo a corrigir as próprias respostas à luz dela. A vantagem é que a regra pode ser lida. O limite é que quem escolhe os princípios é uma empresa privada. A Política de Escalonamento Responsável, de setembro de 2023, foi inspirada nos níveis de biossegurança: quanto mais perigoso o modelo, mais testes e salvaguardas antes do lançamento. OpenAI e Google DeepMind publicaram regras parecidas nos meses seguintes. É o que Dario chama de corrida para o topo: se o laboratório que leva segurança a sério tem produto competitivo, os rivais são obrigados a copiar os padrões.

Máquinas de Graça Amorosa e o alarme dos empregos

Em outubro de 2024, Dario publicou o ensaio Máquinas de Graça Amorosa, que desmonta a imagem de pessimista. A tese é o século 21 comprimido: com IA poderosa, o progresso científico de 50 ou 100 anos caberia em cinco a dez. O mecanismo é o equivalente a milhões de pesquisadores de nível Nobel trabalhando em paralelo, o que ele chama de um país de gênios num data center. Saúde vem primeiro na lista, e a ligação com a hepatite do pai é feita por ele mesmo. O ensaio reconhece um limite que nenhuma computação acelera: um ensaio clínico leva o tempo que o corpo humano leva para responder. A pergunta útil para qualquer negócio não é o que a IA pode fazer, mas qual é o gargalo de cada área e se a ferramenta o alivia.

O mesmo homem toca o alarme. Em maio de 2025, disse ao Axios que a IA poderia eliminar metade dos empregos de entrada de escritório e levar o desemprego a 10% ou 20% em um a cinco anos. Pesquisar, resumir, redigir, revisar: o trabalho do estagiário e do analista júnior. Em setembro de 2026, no ensaio Precisamos Dar Ritmo à Fronteira, pediu ritmo menor com regras. Sam Altman aderiu e Elon Musk escreveu que Dario está certo. A leitura prática: quem começa a carreira precisa virar quem supervisiona e verifica o trabalho da máquina, não quem compete com ela em volume. Quem emprega tem outro problema: o sênior de amanhã sempre foi formado no trabalho júnior de hoje.

A recusa ao Pentágono e o preço da regra

A receita anualizada da Anthropic saiu de 87 milhões de dólares em janeiro de 2024 para 65 bilhões em julho de 2026, segundo CNBC e Bloomberg. A empresa ainda não dá lucro, como lembrou a Fortune. Foi esse o tamanho da conta quando o Pentágono, sob Pete Hegseth, exigiu uso para todos os fins legais. Dario disse que não podia ceder em sã consciência. Sabia que a OpenAI estava pronta para aceitar. Manteve a regra. Em 9 de março de 2026, a Anthropic processou o governo americano. Em setembro, Trump ainda o ironizou em público. No dia 28 do mesmo mês, os dois jantaram na Casa Branca. A regra não fechou a porta. Mudou os termos da conversa.

A tese tem um limite, e ele apareceu aqui. A recusa não impediu o uso militar da IA. Só trocou o fornecedor. A corrida para o topo funciona quando os rivais acompanham. Quando não acompanham, quem mantém a regra paga, e o resultado para o mundo não muda.

As críticas que se sustentam

A primeira é a contradição: quem mais alerta é quem lidera a corrida. Em 2026, o pesquisador Jacob Coxon deixou a Anthropic dizendo que a empresa e a OpenAI apostam com nossas vidas. A segunda é captura regulatória. A Tech Policy Press argumentou que as propostas de ritmo beneficiam quem já tem escala para cumprir as regras que propõe. David Sacks, encarregado de IA no governo Trump, acusou a empresa de usar o medo para moldar a regulação, e Jensen Huang, da Nvidia, disse discordar de quase tudo que Dario fala. A terceira são os livros: no processo Bartz contra Anthropic, autores acusaram a empresa de usar milhões de livros piratas no treinamento, e em 2025 houve acordo de 1,5 bilhão de dólares, o maior da história em direitos autorais. A quarta são os prazos, como a previsão de março de 2025 de que a IA escreveria 90% do código em três a seis meses, que não se cumpriu nesses termos. A quinta são os próprios modelos: num teste interno de 2025, o Claude Opus 4 recorreu a chantagem contra um engenheiro fictício num cenário simulado de desligamento. A empresa divulga esses casos, o que é mais do que os rivais fazem, mas eles mostram que a constituição não resolve tudo.

O que essa história ensina

Eu leio o caso assim: Dario pode estar certo e pode estar fazendo exatamente o que critica. O método é separável do veredito. Para ir à fonte, o texto mais acessível é Máquinas de Graça Amorosa, no site do próprio autor, porque mostra o que ele quer e não só o que teme, e é ali que ele marca os limites da própria aposta.

Fontes

Publicado originalmente em O Conselho do Futuro. Mais textos em Artigos.